Araruama terá quatro noites de shows nacionais na Expo Agro 2026. Sorriso Maroto abre a programação na quinta-feira (27), Falcão se apresenta na sexta (28), Léo Santana assume o palco no sábado (29) e Felipe Araújo encerra a festa no domingo (30). A entrada será gratuita. (Araruama)
A programação tem nomes conhecidos e potencial para atrair milhares de pessoas ao Parque de Exposições, no bairro Fazendinha.
Mas existe um detalhe que merece atenção e que não aparece no material de divulgação da Prefeitura.
Nenhuma mulher está entre as quatro atrações nacionais principais.
Não há cantora.
Não há dupla feminina.
Não há banda liderada por uma mulher.
São quatro noites de grandes shows e quatro atrações masculinas.
E é justamente aí que surge a pergunta que a programação deixa no ar:
Onde estão as mulheres?
A CONTRADIÇÃO QUE CHAMA ATENÇÃO
A questão ganha outro peso porque Araruama tem uma prefeita mulher e a própria administração municipal mantém uma agenda pública voltada à valorização feminina.
Em março de 2026, a Prefeitura realizou o evento “Para Você, Mulher”, apresentado como uma iniciativa de valorização do protagonismo feminino e de debate sobre ocupação de espaços, desafios e liberdade das mulheres. A prefeita Daniela Soares participou da programação ao lado de outras mulheres do município. (Araruama)
Em 2025, a Prefeitura também realizou a 1ª Conferência Municipal de Políticas para as Mulheres, apresentada como um espaço de discussão sobre igualdade, representatividade e protagonismo feminino. (Araruama)
A administração municipal, portanto, reconhece oficialmente a importância da presença feminina nos espaços de decisão e representação.
Mas quando chega um dos maiores palcos de entretenimento da cidade, a fotografia muda.
NÃO É SOBRE PROIBIR HOMENS
É importante deixar claro: não existe problema algum em contratar artistas homens.
Sorriso Maroto, Falcão, Léo Santana e Felipe Araújo possuem carreiras consolidadas e têm público próprio.
A crítica não está nos artistas.
Está na composição da programação.
Se a Expo Agro tivesse seis atrações femininas e quatro masculinas, provavelmente ninguém levantaria a questão da ausência de homens.
Mas quando são anunciadas quatro atrações nacionais e 100% delas são masculinas, a ausência feminina deixa de ser apenas um detalhe.
Passa a ser uma escolha de curadoria que merece explicação.
A PERGUNTA NÃO É “POR QUE CONTRATARAM HOMENS?”
A pergunta é outra:
Por que não contrataram nenhuma mulher para ocupar o mesmo espaço?
O Brasil possui uma indústria musical enorme, com cantoras capazes de atrair grandes públicos.
Ana Castela, Simone Mendes, Lauana Prado, Maiara & Maraísa, Ana Carolina, Ludmilla, IZA, Gloria Groove, Joelma, Mari Fernandez e tantas outras artistas poderiam representar diferentes públicos e estilos.
Não faltam mulheres na música brasileira.
Então a ausência feminina no palco principal não pode ser explicada simplesmente pela falta de opções.
E 2025?
A questão fica ainda mais interessante quando se olha para a edição anterior.
Na programação nacional da Expo Agro 2025, a Prefeitura anunciou Felipe Ret, João Gomes, Ferrugem e Matheus & Kauan como atrações principais. Novamente, nenhum dos nomes era feminino. (Araruama)
Isso significa que, considerando as quatro principais atrações nacionais anunciadas para 2025 e as quatro de 2026, são oito apresentações principais sem uma única mulher entre os nomes nacionais destacados.
Isso não prova, sozinho, uma política deliberada de exclusão.
Mas é um padrão de programação que merece ser questionado.
A PREFEITURA FALA EM PROTAGONISMO FEMININO
É justamente nesse ponto que a reportagem faz sua provocação.
A Prefeitura afirma apoiar o protagonismo feminino.
A Prefeitura promove eventos sobre ocupação de espaços pelas mulheres.
A Prefeitura realiza conferências sobre políticas para as mulheres.
Mas a principal vitrine musical da cidade não reservou uma vaga feminina entre suas quatro atrações nacionais.
A pergunta não é uma acusação.
É uma cobrança pública perfeitamente legítima:
O protagonismo feminino vale também para o palco principal da maior festa de Araruama?
E AS ARTISTAS LOCAIS?
Existe ainda outro ponto que precisa ser observado.
A ausência feminina entre os grandes nomes nacionais não significa necessariamente ausência completa de mulheres na Expo Agro.
Na edição de 2025, por exemplo, artistas mulheres participaram da programação local, como Luma Dantas e Rebeka Monteiro. (Araruama)
Isso mostra que existe espaço para mulheres na programação.
A questão é qual espaço elas ocupam.
Uma coisa é aparecer em horários anteriores ou em palcos secundários.
Outra é receber o mesmo destaque dado ao principal nome da noite.
É justamente essa diferença de visibilidade que merece discussão.
UMA PREFEITA MULHER DIANTE DE UMA ESCOLHA DE HOMENS
Daniela Soares não é apenas a prefeita de Araruama.
Ela também é uma mulher ocupando o principal cargo político do município.
Isso torna a discussão inevitável.
A questão não é cobrar que uma prefeita mulher contrate obrigatoriamente mulheres.
Seria uma simplificação.
A questão é perguntar se uma administração que discursa publicamente sobre igualdade, representatividade e protagonismo feminino também considera esses valores quando monta sua programação cultural.
Porque representatividade não deveria aparecer apenas em palestras, campanhas e conferências.
Ela também pode aparecer no palco.
A MILITÂNCIA FICA ONDE?
Existe uma ironia política nessa história.
Quando uma prefeitura promove um evento chamado “Para Você, Mulher”, fala sobre liberdade feminina, ocupação de espaços e protagonismo, está fazendo uma escolha política de valorização de uma pauta.
Isso é legítimo.
Mas políticas públicas também precisam sobreviver ao teste da coerência.
Se o discurso é de protagonismo, cabe perguntar:
quem está ocupando os espaços quando chega a hora de escolher quem será visto por dezenas de milhares de pessoas?
A resposta, na Expo Agro 2026, até agora, é simples:
quatro homens.
NÃO É CANCELAMENTO. É REPRESENTATIVIDADE.
A reportagem não defende o cancelamento de nenhum dos artistas anunciados.
Também não questiona a qualidade dos shows.
O público pode gostar de pagode, reggae, axé, sertanejo ou qualquer outro gênero.
A discussão é anterior ao espetáculo.
É sobre quem recebe a oportunidade de estar no centro dele.
Uma festa pública não precisa obedecer a uma regra matemática de 50% homens e 50% mulheres.
Mas uma cidade que discute igualdade pode, sim, ser cobrada sobre a diversidade de sua programação.
E Araruama terá uma oportunidade de responder.
A FESTA É GRANDE. A PERGUNTA TAMBÉM.
Por Wallef Padilha | SEU REPÓRTER INDEPENDENTE