Por Luís Davi Cardoso de Andrade - Repórter
Todos os anos, quando setembro chega ao fim, uma tradição toma conta de ruas, casas e comunidades brasileiras. Crianças aguardam pelos tradicionais saquinhos de doces, enquanto famílias e devotos se reúnem para celebrar São Cosme e São Damião.
A data, marcada pela fé e pela memória afetiva de diferentes gerações, tem uma história que atravessa séculos. Os dois irmãos, conhecidos pela dedicação aos enfermos, tornaram-se figuras importantes do cristianismo e ganharam no Brasil novas formas de devoção, influenciadas também pelas religiões de matriz africana.
Mas quem foram Cosme e Damião? E como a história dos santos médicos se transformou em uma das celebrações populares mais conhecidas do país?
DOIS IRMÃOS UNIDOS PELA MEDICINA E PELA FÉ
A história de Cosme e Damião remonta aos primeiros séculos do cristianismo. Embora existam poucos registros históricos precisos sobre suas vidas, a tradição cristã os apresenta como irmãos gêmeos que viveram por volta do século III.
Segundo a tradição, eles eram médicos e atendiam pessoas enfermas sem cobrar pelos serviços. A atitude fez com que fossem associados à caridade, à solidariedade e ao cuidado com aqueles que precisavam de ajuda.
Por não exigirem pagamento pelos tratamentos, ficaram conhecidos como anárgiros, palavra de origem grega relacionada à ideia de “sem dinheiro”.
A fé cristã também faz parte da história dos irmãos. Durante as perseguições aos cristãos no Império Romano, Cosme e Damião teriam sido presos e martirizados por não renunciarem à religião.
Com o passar dos séculos, a devoção aos dois se espalhou por diferentes regiões, e eles passaram a ser venerados como santos e protetores ligados à medicina e à saúde.
COMO A DEVOÇÃO CHEGOU AO BRASIL
A tradição de venerar Cosme e Damião chegou ao Brasil durante o período colonial, trazida pelos portugueses.
Um dos registros mais conhecidos dessa devoção está em Igarassu, em Pernambuco, onde a Igreja Matriz de São Cosme e São Damião tem suas origens no século XVI.
Com o passar do tempo, a celebração ganhou características próprias no país. A devoção aos santos passou a fazer parte da cultura popular e se aproximou de outras tradições religiosas presentes na formação da sociedade brasileira.
É nesse contexto que a história de Cosme e Damião se conecta ao sincretismo religioso.
O ENCONTRO ENTRE COSME E DAMIÃO E OS IBEJI
No Brasil, a celebração dos santos também está relacionada às religiões de matriz africana, especialmente ao candomblé e à umbanda.
Em diferentes tradições afro-brasileiras, Cosme e Damião foram associados aos Ibeji, divindades gêmeas ligadas à infância na tradição iorubá.
Essa aproximação faz parte de um processo histórico complexo. Durante a escravidão, africanos e seus descendentes enfrentaram a repressão de suas práticas religiosas. A associação entre divindades africanas e santos católicos foi, em diferentes contextos, uma forma de preservar crenças, símbolos e tradições.
O sincretismo religioso, portanto, não significa que as religiões sejam iguais. Ele representa encontros e associações entre referências religiosas distintas, que deram origem a manifestações próprias da cultura brasileira.
A presença de Cosme e Damião e dos Ibeji nas celebrações de setembro é um dos exemplos mais conhecidos dessa história.
POR QUE A TRADIÇÃO DOS DOCES SE TORNOU TÃO POPULAR?
Para muitas pessoas, falar de Cosme e Damião é lembrar da infância, das festas nas comunidades e dos saquinhos coloridos distribuídos às crianças.
A tradição de oferecer doces está relacionada à associação dos santos com os Ibeji, ligados à infância nas religiões afro-brasileiras. Com o tempo, a prática se espalhou e ganhou diferentes formas de celebração pelo país.
É importante destacar que a distribuição de doces não faz parte da história original dos dois médicos cristãos. A tradição brasileira se desenvolveu a partir do encontro entre diferentes referências religiosas e culturais.
Em algumas comunidades, a data é marcada pela entrega de doces e brinquedos. Em outras, há celebrações religiosas, cantigas, refeições coletivas e encontros entre familiares e vizinhos.
Na Bahia, por exemplo, o caruru de Cosme e Damião é uma das manifestações mais conhecidas. A comida, preparada e compartilhada em celebrações, também carrega significados religiosos e comunitários.
Mais do que uma lembrança da infância, a distribuição de doces representa, para muitos devotos, uma forma de compartilhar, agradecer e manter viva uma tradição transmitida entre gerações.
AFINAL, O DIA É 26 OU 27 DE SETEMBRO?
A dúvida aparece todos os anos: qual é a data correta para celebrar Cosme e Damião?
A resposta depende da tradição considerada.
No calendário litúrgico atual da Igreja Católica, a memória dos santos é celebrada em 26 de setembro. A mudança ocorreu em 1969, durante uma reforma do calendário litúrgico.
No Brasil, porém, 27 de setembro permaneceu como a data tradicional das comemorações populares, especialmente nas festas que envolvem a distribuição de doces e as manifestações das religiões afro-brasileiras.
A diferença entre as datas ajuda a compreender como uma mesma devoção pode assumir formas distintas ao longo da história.
UMA TRADIÇÃO QUE CONTINUA VIVA
A história de Cosme e Damião não está restrita aos relatos sobre os primeiros séculos do cristianismo. Ela também vive nas celebrações realizadas todos os anos, nas famílias que preservam seus costumes e nas comunidades que mantêm suas tradições religiosas.
Entre a memória dos santos médicos, a associação com os Ibeji e a distribuição de doces, a data revela diferentes dimensões da cultura brasileira.
Para algumas pessoas, é um momento de fé. Para outras, uma lembrança da infância ou uma oportunidade de reunir a comunidade. Em muitas celebrações, esses significados convivem.
Séculos depois, Cosme e Damião continuam presentes na memória popular. E, a cada setembro, a tradição se renova nas ruas, nas casas e nos gestos de quem mantém viva a história dos dois irmãos.
FONTES DE PESQUISA
- Agência Brasil — origem da tradição de distribuir doces no dia de Cosme e Damião.
- Itaú Cultural — sincretismo religioso e relação entre Cosme e Damião e os Ibeji.
- UOL Educação — história dos santos e diferença entre as datas de celebração.
- Brasil Escola — chegada da devoção ao Brasil e referências históricas.