A sífilis é uma infecção sexualmente transmissível que tem cura, mas continua sendo um importante problema de saúde pública no Brasil.

Segundo o Ministério da Saúde, 256.830 casos de sífilis adquirida foram registrados no país em 2024, uma taxa de detecção de 120,8 casos para cada 100 mil habitantes. O número mostra a dimensão de uma infecção que muitas vezes pode passar despercebida, já que os sinais podem desaparecer mesmo quando a bactéria continua presente no organismo.

Entre 2010 e 30 de junho de 2025, o país acumulou 1.902.301 notificações de sífilis adquirida. A Região Sudeste concentrou metade dos registros acumulados no período.

UMA INFECÇÃO QUE PODE ENGANAR

A sífilis é causada pela bactéria Treponema pallidum e pode apresentar diferentes fases: primária, secundária, latente e terciária.

Na fase primária, pode surgir uma ferida geralmente única no local onde a bactéria entrou no organismo. Ela pode aparecer nos órgãos genitais, ânus, boca ou outras regiões da pele.

Um dos problemas é que essa ferida geralmente não dói, não coça, não arde e não apresenta pus. Além disso, pode desaparecer espontaneamente depois de algum tempo.

E é justamente aí que mora um dos perigos: o desaparecimento da ferida não significa que a pessoa esteja curada.

FASE SECUNDÁRIA: AS MANCHAS PODEM APARECER

Na fase secundária, podem surgir manchas pelo corpo, inclusive nas palmas das mãos e nas plantas dos pés.

Também podem ocorrer febre, mal-estar, dor de cabeça e aumento dos gânglios, conhecidos popularmente como ínguas.

Assim como acontece com a lesão inicial, esses sintomas podem desaparecer mesmo sem tratamento. A bactéria, entretanto, pode continuar no organismo.

QUANDO NÃO HÁ SINTOMAS

Depois das fases iniciais, a infecção pode entrar no período chamado de sífilis latente.

Nesse estágio, a pessoa pode não apresentar qualquer sintoma.

É justamente por isso que a testagem tem papel fundamental: uma pessoa pode ter sífilis e não saber que está infectada.

E SE A INFECÇÃO NÃO FOR TRATADA?

Sem tratamento, a sífilis pode evoluir para a fase terciária.

Segundo o Ministério da Saúde, essa fase pode provocar lesões cutâneas, ósseas e cardiovasculares, além de manifestações neurológicas e, em casos graves, levar à morte.

Por isso, a ideia de que “a ferida sumiu, então passou” é perigosa.

A sífilis tem cura. Os sintomas desaparecerem sozinhos não significam que a infecção foi eliminada.

TRATAMENTO EXISTE E É OFERECIDO PELO SUS

A sífilis pode ser tratada.

O tratamento de escolha é a penicilina benzatina, disponibilizada nos serviços de saúde do SUS. O número de doses e o esquema utilizado dependem da avaliação clínica e do estágio da infecção.

Também é fundamental que as parcerias sexuais sejam avaliadas, testadas e, quando indicado, tratadas. Isso ajuda a interromper a cadeia de transmissão e evita que uma pessoa tratada seja infectada novamente.

Outro ponto importante: ter tido sífilis uma vez não produz imunidade permanente. Uma pessoa pode ser curada e posteriormente adquirir a infecção novamente.

O ALERTA QUE PRECISA SER FEITO SOBRE A PrEP

A popularização da PrEP, a profilaxia pré-exposição ao HIV, representa um importante avanço na prevenção do HIV.

Mas existe uma confusão que pode colocar pessoas em risco.

PrEP não previne sífilis.

Também não protege contra gonorreia, clamídia e outras infecções sexualmente transmissíveis.

O próprio Ministério da Saúde afirma que a PrEP protege contra o HIV, enquanto a prevenção de outras ISTs exige outras estratégias, como o uso de preservativos, testagem e tratamento.

Fonte da imagem: Ministério da Saúde — Governo Federal / Departamento de HIV, Aids, Tuberculose, Hepatites Virais e ISTs. Página oficial sobre PrEP no Ministério da Saúde

PREVENÇÃO COMBINADA

A prevenção sexual não precisa depender de uma única estratégia.

O Ministério da Saúde recomenda uma abordagem de prevenção combinada, que pode envolver:

  • preservativo externo ou interno;

  • testagem regular para HIV, sífilis e hepatites virais;

  • PrEP para prevenção do HIV, quando indicada;

  • PEP após determinadas situações de exposição ao HIV;

  • vacinação contra HPV e hepatite B;

  • diagnóstico e tratamento das ISTs;

  • tratamento das parcerias sexuais quando indicado.

PrEP + preservativo não é redundância. São camadas diferentes de proteção.

TESTE GRATUITO NO SUS

O diagnóstico da sífilis pode ser feito por teste rápido, disponibilizado gratuitamente pelo SUS. Segundo o Ministério da Saúde, o resultado pode ficar disponível em até 30 minutos.

A testagem é especialmente importante para quem teve relação sexual sem preservativo, teve uma parceria diagnosticada com uma IST ou apresenta algum sinal ou sintoma suspeito.

E mesmo quem não apresenta sintomas pode precisar realizar o teste.

UMA EXPERIÊNCIA PESSOAL QUE VIROU ALERTA

Esta reportagem também nasce de uma experiência pessoal.

Descobrir uma IST pode provocar medo, vergonha, culpa ou preocupação. Mas a sífilis não deve ser tratada como motivo para julgamento moral.

IST não escolhe caráter, orientação sexual, estado civil ou classe social.

Qualquer pessoa sexualmente ativa pode adquirir uma infecção.

Transformar o diagnóstico em informação pode ser uma forma de ajudar outras pessoas a procurar atendimento antes que a doença avance.

O RECADO MAIS IMPORTANTE

A sífilis tem cura.

Mas diagnóstico e tratamento precisam acontecer.

Uma ferida que desapareceu não significa necessariamente que a infecção acabou. Manchas que sumiram também não significam cura. E não apresentar sintomas não significa que a pessoa esteja livre da bactéria.

Teste. Trate. Avise suas parcerias. Previna-se. E lembre-se: PrEP protege contra o HIV, mas não contra todas as ISTs.

No SUS, informação, testagem e tratamento fazem parte da resposta à sífilis.

WALLEF PADILHA | SEU REPÓRTER INDEPENDENTE