Durante anos, o K-pop foi tratado por muita gente como música de nicho. Um fenômeno restrito a determinados grupos de fãs, especialmente jovens que acompanhavam artistas sul-coreanos, aprendiam coreografias, colecionavam álbuns e viajavam quilômetros para assistir aos ídolos.

Nesta sexta-feira, 11 de setembro, essa ideia chega à Cidade do Rock com uma resposta bastante clara: talvez o K-pop nunca tenha sido tão pequeno quanto parte da indústria imaginava.

Pela primeira vez em seus 41 anos de história, o Rock in Rio dedica um dia do Palco Mundo ao gênero. A programação reúne NEXZ, Hwasa e Stray Kids, com apresentações às 16h40, 19h e 0h05, respectivamente. Entre eles, Alok ocupa o palco às 21h20 com o projeto Keep Art Human.

E há um detalhe que diz muito sobre essa transformação: segundo a cobertura do festival, a sexta-feira chega com ingressos esgotados e o público também recebeu autorização inédita para entrar com lightsticks, objeto que faz parte da experiência dos fãs de K-pop.

NÃO É APENAS SOBRE STRAY KIDS

Seria fácil resumir a sexta-feira ao show do Stray Kids.

O grupo sul-coreano é, de fato, o grande nome da noite e encerra a programação do Palco Mundo. Mas reduzir a presença do K-pop ao tamanho de uma única banda seria perder justamente o aspecto mais interessante dessa história.

O Rock in Rio não colocou apenas um artista asiático em sua programação.

Colocou um ecossistema cultural inteiro no centro de sua principal plataforma.

NEXZ abre o Palco Mundo. Hwasa ocupa o horário nobre. Stray Kids fecha a noite.

No meio disso, milhares de fãs chegam à Cidade do Rock não apenas para ouvir música, mas para participar de uma experiência que envolve dança, estética, comunidades virtuais, produtos, símbolos, códigos próprios e uma relação extremamente próxima entre artista e público.

É uma maneira diferente de consumir música ao vivo.

E o festival precisou reconhecer isso.

QUANDO O “DIFERENTE” PASSA A SER MAINSTREAM

Existe uma contradição interessante nessa história.

Por muito tempo, o K-pop precisou conquistar espaço fora dos circuitos tradicionais da música ocidental. Fãs brasileiros organizaram comunidades, divulgaram artistas nas redes sociais, produziram conteúdo, fizeram campanhas e transformaram o interesse pelo gênero em uma verdadeira cultura de fandom.

Agora, é o próprio Rock in Rio que abre espaço para essa comunidade.

O movimento mostra que os grandes festivais já não podem pensar apenas no público que tradicionalmente ocupava suas arquibancadas.

O público mudou.

E os festivais precisam mudar junto.

A própria programação de 2026 demonstra essa transformação. Além do K-pop, o Rock in Rio reúne rock, pop, música brasileira, hip-hop, funk, música eletrônica e artistas de diferentes gerações em seus palcos.

O nome continua sendo Rock in Rio.

Mas a experiência oferecida pelo festival há muito deixou de caber apenas dentro da palavra “rock”.

E ISSO É UMA BOA NOTÍCIA?

Na minha avaliação, sim.

Não porque o K-pop precise da aprovação do Rock in Rio.

Mas justamente pelo contrário.

O festival é que precisa entender que determinados públicos já construíram sua própria relevância antes de receberem um convite para a Cidade do Rock.

O K-pop não nasceu ontem.

Seus fãs não apareceram agora.

O que mudou foi a disposição das grandes estruturas culturais para reconhecer esse público.

E existe uma diferença importante entre simplesmente colocar um artista estrangeiro em um festival e criar condições para que aquela comunidade se reconheça dentro dele.

A presença dos lightsticks é simbólica nesse sentido.

Pode parecer apenas uma autorização para levar um objeto para dentro do evento.

Não é.

É o reconhecimento de uma forma específica de viver um show.

O ROCK IN RIO ESTÁ OUVINDO O NOVO PÚBLICO?

Essa talvez seja a pergunta mais importante.

A decisão de dedicar o Palco Mundo ao K-pop pode ser lida como estratégia comercial. Afinal, grandes festivais precisam acompanhar tendências, vender ingressos e dialogar com novos consumidores.

Mas também pode ser vista como uma transformação cultural.

O público que cresceu assistindo a videoclipes na televisão não é necessariamente o mesmo que hoje descobre artistas pelo TikTok, acompanha transmissões ao vivo, participa de comunidades internacionais e transforma uma música lançada na Coreia do Sul em fenômeno dentro do Brasil.

A indústria cultural mudou.

A forma de criar fãs mudou.

E a maneira de ocupar um festival também mudou.

MAIS DO QUE UMA MODA

Existe ainda outro ponto que merece atenção.

Chamar o K-pop de “moda” é ignorar a dimensão internacional que o gênero alcançou.

A sexta-feira do Rock in Rio coloca no mesmo palco artistas de diferentes momentos de suas carreiras, mas todos inseridos em uma indústria que construiu uma linguagem própria e uma comunidade global.

Para o público brasileiro, isso significa também uma mudança de representação cultural.

Durante muito tempo, grandes festivais brasileiros olharam principalmente para Estados Unidos, Reino Unido e Europa quando pensavam em grandes atrações internacionais.

Agora, a Ásia ocupa o Palco Mundo.

E não como curiosidade.

Como atração principal.

A OPINIÃO DE WALLEF PADILHA

Talvez o mais interessante dessa história não seja perguntar se o K-pop “merece” estar no Rock in Rio.

Essa pergunta já deveria ter sido superada.

A pergunta é outra:

por que demorou tanto?

Se existe público, existe interesse. Se existe interesse, existe mercado. E se existe uma comunidade capaz de lotar um dia de festival, aprender coreografias, carregar lightsticks e transformar artistas estrangeiros em fenômenos brasileiros, ela merece ser tratada como público — não como exceção.

O Rock in Rio fez uma aposta.

Agora, cabe observar se essa aposta será apenas uma edição especial ou se representará uma mudança definitiva na maneira como os grandes festivais brasileiros enxergam a música asiática e seus fãs.

Porque o K-pop pode até ter chegado agora ao Palco Mundo.

Mas seus fãs já estavam aqui há muito tempo.

FONTES

  • Gshow — programação oficial do Rock in Rio 2026.
  • Gshow — programação do segundo fim de semana do festival.
  • UOL — cobertura sobre o primeiro dia dedicado ao K-pop no Rock in Rio.
  • UOL — programação e análise da presença do K-pop no Palco Mundo.

WALLEF PADILHA | SEU REPÓRTER INDEPENDENTE