Uma experiência inesperada na Rodoviária Novo Rio levou o repórter a conhecer por dentro um universo marcado pelo anonimato, desejo, códigos silenciosos e adrenalina e a questionar os próprios preconceitos.
POR WALLEF PADILHA | SEU REPÓRTER INDEPENDENTE
Eu entrei no banheiro da Rodoviária Novo Rio sem intenção de fazer uma reportagem.
Entrei como qualquer outra pessoa entraria em um banheiro de rodoviária. Mas um olhar chamou minha atenção. Um rapaz piscou para mim.
A aproximação aconteceu.
E, a partir daquele momento, comecei a perceber que havia uma dinâmica naquele espaço que eu desconhecia.
Depois que ele saiu, outras movimentações chamaram minha atenção. Homens se observavam, trocavam olhares e sinais discretos. Alguns pareciam saber exatamente o que estavam procurando.
Foi assim que descobri, na prática, o chamado “banheirão” — expressão popular usada para encontros sexuais anônimos ou casuais em banheiros públicos ou outros espaços de circulação.
E preciso admitir uma coisa antes de continuar:
eu tinha preconceito.
Julgava quem procurava esse tipo de experiência. Achava estranho. Não entendia o que poderia levar alguém a procurar sexo em um banheiro público quando existem aplicativos, bares, festas, redes sociais e tantos outros espaços para conhecer alguém.
Até experimentar.
E gostei.
O QUE ACONTECE NO BANHEIRÃO?
Minha primeira impressão foi a de que ninguém precisava explicar muita coisa.
Não havia necessariamente conversa.
Havia olhares.
Uma piscada.
Uma aproximação.
Um gesto.
Um toque discreto.
E, principalmente, uma percepção de que determinadas pessoas estavam ali procurando exatamente aquilo.
O que mais me chamou atenção foi a sensação de anonimato.
Pessoas que não sabiam o nome umas das outras pareciam compartilhar determinadas regras silenciosas.
Em alguns momentos, percebi inclusive uma espécie de vigilância informal: quando alguém da limpeza ou da segurança aparecia, os frequentadores percebiam rapidamente.
Era como se aquele grupo, formado por completos desconhecidos, tivesse desenvolvido seus próprios códigos de convivência.
Não estou dizendo que todos os banheiros públicos funcionam dessa maneira.
Mas naquele espaço, naquele momento, foi isso que encontrei.
A ADRENALINA DE FAZER ALGO PROIBIDO
Se existe uma palavra capaz de resumir minha experiência, é adrenalina.
Não era apenas o desejo.
Era a situação.
Era saber que aquilo estava acontecendo em um local onde outras pessoas poderiam entrar a qualquer momento.
Era o desconhecido.
Era não saber exatamente quem estava do outro lado.
Era a sensação de fazer algo que eu mesmo, até pouco tempo antes, julgava.
Em determinado momento, inclusive, o medo de ser descoberto falou mais alto.
A possibilidade de alguém entrar, perceber o que estava acontecendo ou interromper aquela situação fez com que eu pensasse em como sair dali caso fosse necessário.
E foi aí que percebi uma das contradições do banheirão:
o mesmo risco que pode aumentar a adrenalina também pode transformar o prazer em medo.
QUEM FREQUENTA?
Talvez essa seja uma das perguntas mais difíceis de responder.
Porque não existe um único perfil.
Durante minha experiência, percebi pessoas de diferentes idades e situações afetivas.
Havia jovens, homens mais velhos, solteiros e pessoas que aparentavam ou diziam estar em relacionamentos.
E essa foi outra coisa que me fez pensar.
Eu também tinha preconceito com a ideia de uma pessoa casada procurar esse tipo de encontro.
Mas depois da experiência comecei a perceber que a realidade é mais complexa do que os rótulos que costumamos colocar nas pessoas.
Não cabe ao repórter determinar a orientação sexual de alguém pela aparência ou pelo comportamento observado.
Um homem pode se identificar como heterossexual, bissexual ou gay. Pode estar solteiro ou em um relacionamento.
E uma experiência sexual não permite, sozinha, definir a identidade de uma pessoa.
É justamente por isso que a pergunta mais interessante talvez não seja “quem são essas pessoas?”, mas:
“O que elas estão procurando?”
Sexo?
Curiosidade?
Anonimato?
Adrenalina?
Uma fuga da rotina?
Uma fantasia?
Ou simplesmente alguns minutos de prazer sem a necessidade de construir uma relação?
DO APLICATIVO PARA O BANHEIRO
Vivemos em uma época em que conhecer alguém está a poucos toques de distância.
Aplicativos permitem escolher idade, distância, interesses e até o tipo de encontro desejado.
Mesmo assim, existe algo que o aplicativo não consegue reproduzir completamente:
o acaso.
No banheirão, pelo menos na experiência que vivi, não havia perfil, fotografia, biografia ou conversa prévia.
Havia presença.
Olhares.
Curiosidade.
E uma decisão tomada em poucos segundos.
Depois daquela experiência, cheguei a pensar:
será que parte da atração está justamente em não saber o que vai acontecer?
QUANDO O PRAZER ENCONTRA O RISCO
Mas seria irresponsável contar essa história apenas pelo lado prazeroso.
O mesmo anonimato que pode ser excitante também pode aumentar vulnerabilidades.
Uma pessoa pode não conhecer o histórico sexual do parceiro, pode ter dificuldade de conversar sobre prevenção ou pode entrar em uma situação sem avaliar adequadamente os riscos.
E existe uma questão ainda mais importante:
ISTs não escolhem orientação sexual, idade ou estado civil.
O Ministério da Saúde afirma que qualquer pessoa sexualmente ativa pode estar exposta a uma infecção sexualmente transmissível, independentemente de idade, estado civil, identidade de gênero ou orientação sexual. A estratégia recomendada pelo SUS é a chamada Prevenção Combinada, que reúne diferentes formas de prevenção, testagem, vacinação, diagnóstico e tratamento.
Entre as estratégias estão os preservativos, testes para HIV, sífilis e hepatites virais, vacinação contra HPV e hepatite B e as profilaxias PrEP e PEP para o HIV.
PRÉP NÃO É UM “ESCUDO” CONTRA TODAS AS ISTs
Essa é uma informação que precisa ser muito clara.
A PrEP é uma estratégia de prevenção contra o HIV. Ela não elimina o risco de outras infecções sexualmente transmissíveis.
O próprio Ministério da Saúde recomenda acompanhamento regular e testagem para HIV e outras ISTs para quem utiliza PrEP. O uso de preservativos continua sendo uma ferramenta importante de prevenção.
Na minha própria experiência, usei preservativo em uma das relações.
Mas isso não significa que uma pessoa deva considerar uma situação sexual automaticamente segura apenas porque utiliza PrEP.
Prevenção não é uma única atitude. É um conjunto de escolhas.
E SE A CAMISINHA ROMPER?
Existe ainda a PEP, a Profilaxia Pós-Exposição.
Ela é uma medida de emergência utilizada depois de uma situação que possa representar risco de exposição ao HIV.
Segundo o Ministério da Saúde, a PEP deve ser iniciada o mais rapidamente possível e, para prevenção do HIV, no máximo até 72 horas após a exposição. O tratamento dura 28 dias e é oferecido gratuitamente pelo SUS.
Isso significa que alguém que passou por uma situação de risco não deve simplesmente esperar para descobrir se algo aconteceu.
Procure atendimento.
Quanto mais cedo houver avaliação, melhor.
O RISCO NÃO É APENAS UMA IST
Existe outro lado que pouco aparece quando falamos sobre banheirão.
A segurança.
Encontros com desconhecidos podem envolver situações de vulnerabilidade que não têm relação direta com doenças.
Pode existir medo de:
- furto;
- violência;
- extorsão;
- exposição;
- gravações sem consentimento;
- chantagem;
- conflitos;
- situações em que uma pessoa não consegue deixar claro que não quer continuar.
E existe uma regra que deveria ser inegociável:
consentimento precisa existir durante toda a interação.
Um olhar não é autorização permanente.
Uma aproximação não é autorização permanente.
Uma interação anterior não significa consentimento para a próxima.
E ninguém é obrigado a continuar uma situação porque começou.
E A LEI?
Existe ainda uma dimensão jurídica.
O Código Penal brasileiro estabelece, no artigo 233, que praticar ato obsceno em lugar público, aberto ou exposto ao público pode configurar crime, com previsão de detenção de três meses a um ano ou multa.
Isso não significa que toda situação ocorrida dentro de qualquer banheiro público possa ser resumida automaticamente a uma única conclusão jurídica.
As circunstâncias importam.
Por isso, essa é uma questão que precisa ser analisada por um advogado criminalista, especialmente quando se fala de exposição a terceiros, local público e eventual abordagem por funcionários ou autoridades.
O prazer de uma experiência não elimina suas possíveis consequências.
EU JULGAVA. AGORA EU QUESTIONO.
Talvez essa seja a parte mais difícil desta reportagem.
Eu entrei naquele banheiro com uma visão formada sobre quem procurava aquele tipo de encontro.
Saí diferente.
Não porque agora acredito que todo mundo deva fazer a mesma coisa.
Nem porque considero que os riscos deixaram de existir.
Mas porque descobri que é muito fácil julgar um comportamento que nunca experimentamos ou tentamos compreender.
Eu gostei.
Essa é uma realidade da minha experiência e não tenho por que esconder isso.
Gostei da adrenalina.
Da espontaneidade.
Da sensação de anonimato.
Da descoberta.
Do fato de não precisar abrir um aplicativo para encontrar alguém interessado naquele mesmo momento.
Mas também saí pensando que gostar de alguma coisa não significa ignorar suas consequências.
O BANHEIRÃO É SOBRE SEXO?
Talvez não seja apenas.
Pode ser sobre desejo.
Pode ser sobre solidão.
Pode ser sobre curiosidade.
Pode ser sobre rotina.
Pode ser sobre uma sexualidade que alguém ainda não consegue viver abertamente.
Pode ser sobre adrenalina.
Pode ser simplesmente sobre sexo.
E talvez seja justamente essa variedade de motivações que torne tão difícil colocar todos os frequentadores dentro de uma única caixa.
No fim, minha experiência me deixou com mais perguntas do que respostas.
Por que procuramos determinadas experiências?
Por que o proibido pode parecer tão excitante?
Por que algumas pessoas preferem o anonimato?
E até onde vale correr riscos por alguns minutos de prazer?
Eu fui.
Experimentei.
Gostei.
E foi justamente porque gostei que percebi que precisava entender melhor aquilo que antes eu simplesmente julgava.
Porque, por trás da porta de um banheiro, existe muito mais do que aquilo que quem está do lado de fora consegue enxergar.