Todos os anos, a mesma cena se repete em centenas de cidades brasileiras.
Ruas são interditadas, escolas organizam seus alunos, bandas ensaiam, autoridades ocupam os palanques e crianças vestem seus uniformes para desfilar em homenagem à Independência do Brasil.
É uma imagem bonita.
É emocionante ver crianças marchando, muitas delas pela primeira vez, carregando bandeiras, cantando e representando suas escolas. São elas, afinal, parte do futuro de uma nação.
Mas existe uma pergunta que precisa ser feita:
o que aconteceu com o público do 7 de Setembro?
Em muitas cidades, o desfile parece ter deixado de ser uma grande celebração popular para se transformar em um compromisso familiar. Pais, mães, avós e responsáveis vão às ruas para assistir aos próprios filhos. Quando a apresentação termina, boa parte desse público também vai embora.
O que deveria ser uma celebração nacional aberta a toda a sociedade pode acabar funcionando como uma espécie de apresentação escolar a céu aberto.
E é justamente aí que começa a discussão.
CIVISMO OU PROTOCOLO?
O 7 de Setembro possui um significado histórico incontestável. A data marca a Independência do Brasil e representa um dos principais símbolos da formação do país.
Mas preservar uma data histórica não significa necessariamente preservar a mesma maneira de comemorá-la.
Quando o desfile se torna previsível, repetitivo e protocolar, existe o risco de que a população deixe de participar espontaneamente.
A pergunta não é se devemos acabar com os desfiles.
A pergunta é:
eles ainda conseguem despertar na população o mesmo sentimento cívico que deveriam representar?
Ou estamos apenas repetindo uma tradição porque ela sempre esteve no calendário?
QUANDO O PALANQUE GANHA MAIS ATENÇÃO DO QUE A AVENIDA
Existe ainda outro elemento que merece ser observado: o uso político do espaço reservado às autoridades.
O palanque oficial deveria representar a presença institucional do poder público em uma cerimônia cívica.
Mas, na prática, o momento também pode se transformar em uma oportunidade para prefeitos, vereadores e outras autoridades apresentarem obras, investimentos, programas e realizações de governo.
Não há nada de errado em prestar contas à população.
O problema começa quando uma cerimônia que deveria pertencer à sociedade passa a funcionar também como vitrine política.
Em vez de o foco estar exclusivamente na história da Independência, o cidadão pode acabar ouvindo uma espécie de balanço administrativo do governo.
E então surge uma questão incômoda:
o 7 de Setembro está sendo usado para celebrar o Brasil ou para celebrar governos?
A resposta precisa ser encontrada em cada município.
QUEM PAGA PARA DESFILAR?
Existe ainda uma questão menos visível, mas que merece investigação.
Quanto custa para uma família colocar uma criança no desfile?
Em algumas cidades, famílias relatam a necessidade de comprar peças de uniforme, calçados, acessórios ou outros itens exigidos para a participação dos estudantes.
Se a participação ocorre dentro de uma programação oficial do município e envolve escolas públicas, surge uma pergunta legítima:
até onde vai a responsabilidade do poder público e onde começa a responsabilidade financeira da família?
Não se trata de defender que toda criança precise receber um uniforme novo para desfilar.
Trata-se de saber se uma atividade apresentada como cívica e institucional está gerando despesas para famílias que muitas vezes já enfrentam dificuldades financeiras.
Quanto cada município investe?
Quanto é gasto com estrutura?
Quanto é destinado a bandas, palcos, som, segurança, decoração, transporte e organização?
E quanto é investido diretamente nos estudantes que participam?
Essas são perguntas que documentos públicos podem responder.
O DESFILE QUE AINDA EMOCIONA
Apesar de todas essas questões, existe algo que não pode ser ignorado.
As crianças.
É difícil assistir a uma criança entrando na avenida com a bandeira do Brasil sem reconhecer a beleza daquele momento.
Para muitas delas, o desfile representa orgulho, pertencimento, amizade e uma experiência que será lembrada durante anos.
Talvez o problema não esteja nelas.
Talvez esteja nos adultos.
Porque enquanto crianças continuam encontrando significado naquele momento, nós precisamos perguntar se os adultos ainda encontram significado na cerimônia.
Talvez seja justamente por isso que o debate precise acontecer.
Não para acabar com o 7 de Setembro.
Mas para devolvê-lo à população.
MAIS DO QUE MARCHAR
Uma celebração da Independência poderia ser também uma oportunidade para discutir o Brasil.
Poderia trazer debates sobre cidadania, democracia, educação, direitos, desigualdade, cultura e participação popular.
Poderia transformar o estudante que desfila em protagonista de uma reflexão sobre o país que ele vai receber no futuro.
Poderia transformar o público em participante e não apenas espectador.
E poderia fazer do palanque um espaço de representação institucional, não uma extensão de uma campanha eleitoral permanente.
O Brasil não precisa deixar de desfilar.
Talvez precise apenas descobrir por que ainda desfila.
Porque, no fim das contas, as crianças continuam marchando.
As bandas continuam tocando.
As bandeiras continuam tremulando.
Mas a pergunta permanece:
quando a última escola passar, o que terá ficado para a cidade além das fotos, dos discursos e do protocolo?
Talvez a verdadeira independência seja justamente ter liberdade para fazer essa pergunta.
Por Wallef Padilha | SEU REPÓRTER INDEPENDENTE