NÃO É SOBRE AS TORRES. É SOBRE AS PESSOAS

Às 8h46 daquela manhã, o mundo ainda não sabia que estava diante de um dos acontecimentos mais marcantes do século XXI.

Hoje, 25 anos depois, sabemos como aquela história terminou.

Sabemos os números. Sabemos os nomes dos lugares. Conhecemos as imagens.

Mas talvez exista uma pergunta que mereça ser feita novamente:

o que aconteceu com as pessoas depois que as câmeras foram embora?

Essa é uma parte da história que não cabe facilmente em uma retrospectiva televisiva.

Porque o 11 de Setembro não terminou quando as torres desabaram.

Para milhares de famílias, aquele dia continuou.

Continuou na ausência de um pai, de uma mãe, de um filho, de um irmão.

Continuou nas doenças desenvolvidas por pessoas que trabalharam nos escombros.

Continuou na memória daqueles que sobreviveram.

E continuou também nas decisões tomadas por governos em nome da segurança.

O LUTO QUE NÃO CABE EM UMA DATA

Existe uma diferença entre lembrar uma tragédia e transformar uma tragédia em espetáculo.

Todos os anos, as mesmas imagens retornam.

As torres.

A fumaça.

Os aviões.

O choque.

Mas atrás de cada número existia uma pessoa.

E atrás de cada pessoa existia uma família.

É aí que a reportagem pode mudar de caminho.

E QUANDO O LUTO VIROU POLÍTICA?

Essa talvez seja a parte mais importante e mais delicada da reportagem.

O atentado foi cometido pela organização terrorista Al-Qaeda. Isso é um fato histórico.

Mas os acontecimentos que vieram depois também fazem parte da história.

Os Estados Unidos lançaram a chamada “Guerra ao Terror”, invadiram o Afeganistão e, posteriormente, o Iraque. Houve mudanças profundas nas políticas de segurança, inteligência, vigilância e controle de fronteiras.

E existe uma pergunta legítima para o jornalismo fazer:

Até onde um Estado pode ampliar seu poder em nome da segurança sem colocar em risco direitos e liberdades individuais?

Essa pergunta não diminui o sofrimento das vítimas.

Pelo contrário.

É justamente porque vidas foram perdidas que as decisões tomadas depois precisam ser examinadas.

A MEMÓRIA TAMBÉM PRECISA SER HUMANA

Talvez essa seja a diferença entre uma reportagem comemorativa e uma reportagem jornalística.

Não se trata de relativizar o terrorismo.

Não se trata de transformar vítimas em números.

E também não se trata de escolher um lado político.

Trata-se de reconhecer que uma tragédia pode produzir outras consequências durante décadas.

O luto merece respeito.

A memória merece respeito.

Mas a história também merece perguntas.

E talvez uma das maiores perguntas do 11 de Setembro seja justamente esta:

quando uma sociedade traumatizada pede segurança, quem decide quanto de liberdade ela precisa entregar para recebê-la?

25 ANOS DEPOIS

Um quarto de século depois, uma nova geração conhece o 11 de Setembro principalmente pelos livros, filmes, documentários e imagens de arquivo.

Muitos jovens sequer eram nascidos quando os aviões atingiram as torres.

Por isso, lembrar não significa apenas repetir aquilo que aconteceu.

Significa explicar por que aquilo ainda importa.

O 11 de Setembro deixou vítimas, famílias enlutadas e sobreviventes.

Mas deixou também consequências políticas que ultrapassaram as fronteiras dos Estados Unidos.

E talvez seja esse o ponto que mereça ser lembrado hoje:

uma sociedade não honra seus mortos apenas construindo memoriais. Também os honra aprendendo com as decisões tomadas depois de suas mortes.

Por Wallef Padilha | Seu Repórter Independente